Faz muito tempo desde que pousei neste planeta sob seus desejos. Compreendia até então que sua tese era mera suposição, que organismos que se desenvolveram tão rapidamente na história de nosso universo não poderiam se subdividir em sociedades tão complexas. Deixo aqui minhas humildes desculpas, novamente vítima de minha própria arrogância.
Na minha visita à Tiamat, fiquei sabendo em um jantar com um dos embaixadores sobre uma cidade localizada numa ilha, algumas centenas de quilômetros dali, cujas características fossem, talvez, de boa valia científica. Me alertou, contudo, sobre sua natureza isolacionista: recusam-se a formar qualquer tipo de aliança formal, mesmo com outros Nektoprimals. Sem querer perder muito tempo, tratei de organizar uma expedição o quanto antes, e o embaixador foi gentil o suficiente para me fornecer um de seus assessores para que me acompanhasse. Segundo ele, gostaria de checar novamente como anda o povo de Gyrqual.
No dia seguinte, após uma breve viagem, aportei num dos poucos locais acessíveis daquele arquipélago, e fui recebido pelo olhar sólido de Nektoprimals que pararam de trabalhar para nos presentear com olhares desconfiados. Se meus registros estão corretos, Trata-se de uma variante conhecida como os “Littorais”. Prontamente o assessor do embaixador os saudou em seu próprio idioma, e fez questão de me introduzir a eles. Ainda assim, seus olhares se desviaram rapidamente. Pareciam insatisfeitos, ressentidos, como se eu fosse culpado de algo. Pouco moviam seus corpos robustos e multilados, ornados por curiosas roupas e armaduras feitas de um material que não conseguia reconhecer.
Fiz questão de acenar, tentar que me notassem - nada. Nem mesmo o esboço de uma expressão. Foi só quando o meu acompanhante, um jovem Limnic, decidiu apresentar à eles nossas oferendas. Relutante, um deles aceitou nos guiar por sua cidade até seu líder. Ele aparentava ser alguma espécie de caçador, trajado com roupas de couro, mas que deixavam a parte superior de seu corpo à mostra.
Por mais perguntas que eu fizesse, o caçador simplesmente se recusava a me dar ouvidos, fingindo completamente que não existia. Algumas vezes, olhava para mim quando fazia algum comentário. Algo me diz que ele era completamente capaz de me compreender, mas simplesmente decidia me ignorar.
Segundo o assessor, seu nome é Basalto. Disse-nos que foi o nome dado por seus companheiros, e que, em sua cultura, somente aqueles dignos de uma grande batalha é que são dignos de ganhar um apelido. Mostrou-nos suas cicatrizes, marcas de diversos tipos, mas chamou a atenção para uma em suas costas, um corte profundo e impreciso, contando-nos que, neste dia, caçou uma grande criatura (algo que meu companheiro de pesquisa traduziu como “uma moreia colossal”) que rastreou, trazendo riqueza e orgulho para seu povo. Disse-nos que para um Gyrqual, um de sua tribo, não há honra maior que trazer orgulho para os seus respeitando o que chamou de “Caminho Justo”.
Eu fiquei curioso sobre esse “Caminho Justo”. O jovem assessor me disse que os Nektoprimals que formaram a tribo na ilha acreditam que só há justiça quando se enfrenta a natureza utilizando-se dela própria, ou seja, através de suas próprias capacidades físicas, e que alterá-la ou tentar domá-la é um desvio, um abuso contra a ordem natural das coisas. Assim como os que vivem nessa cidade, aparentemente existem vários lugares como este em Tiamat: lugares onde certos recursos tecnológicos são considerados uma mancha. Aqui, comecei a entender um pouco os olhares desconfiados.
A cidade era um tanto estranha, ao menos para os meus padrões. Ela começava na praia, mas ia avançando para dentro do mar. As estruturas iam aos poucos sendo engolidas pela água, até que fossem completamente submersas, fora de minha visão
Na região central, com a água já na altura de meu estômago, nos guiou na direção de uma estrutura curiosa, abobadada e oca, disse que lá era a casa do chefe de sua tribo e que se fosse de seu desejo, eu poderia ficar. Era realmente uma obra única de arquitetura. Ossos imensos eram como vigas, e escamas, cuidadosamente soldadas umas às outras, formavam paredes, as quais dispunham todo tipo de troféu de caça - crânios dos mais diversos tipos. Ele nos deixou ali e voltou aos seus afazeres. Diante de nós, sentada em um trono feito de espinhas e dentes, uma figura jovial e de boas feições, porém de olhar cansado. Seu corpo era como uma rocha, imóvel, seguro. Em uma de suas mãos trazia consigo uma lança. Seu torso parecia forte e espesso, como se fosse construído de uma carne densa, que exibia cheia de marcas. Levantou, mostrando sua considerável estatura e, sem pensar duas vezes, proferiu insultos ao meu acompanhante, que colocava as mãos à frente de si, quase como se defendendo de um golpe iminente. E, então, se dirigiu a mim com sua estrutura sólida e cruel, e de forma eloquente. “É de muita audácia colocar teus pés em minha casa, deturpador. Vieste nos castigar novamente à servidão eterna? Buscas em nosso assentamento um servo tolo o bastante para fazer-des tua vontade? Desfrutas de excessiva sorte, ao não ter teu crânio separado de teu pescoço no momento que encardiu minha visão com teu semblante torpe.”
“Não busco ofender, senhor. Sou um estudioso. Busco somente entender seu povo, compartilhar de seus costumes”, disse, em minha defesa. “Se minha presença lhe ofende, eu peço para que me permita que me retire em segurança”.
“Pois bem” continuou, “Se és a verdade que buscas, és a verdade que terás.”
E, então, me contou a história de seu povo, de como tiveram que aprender a encarar o mar aberto, e de como finalmente escaparam do domínio de seus senhores. Como muitos de seus irmãos decidiram, assim como seus criadores, manipular o mundo ao seu bel prazer. Me mostrou, também, e com muito orgulho, suas cicatrizes em seus músculos definidos, contando a trama por trás de cada uma. Apesar de aparentar ser jovem, as marcas em seu corpo contam uma antiga história, anterior até a ele próprio. Ele hoje replicava aquilo que todos os outros daquela tribo sempre fizeram, e que sempre vão fazer.
Bem, tudo corria como deveria, até que em um devaneio, um impulso de curiosidade acadêmica me causou um lapso de razão e eu decidi tocá-lo no antebraço. Algo sobre a textura de sua pele me era… extremamente atraente. No mesmo segundo ele puxou seu braço para si e me olhou enojado. “Sabe, aparenta-me que o bom-senso não corre pelos genes de teu povo. Não é como se tivessem-nos pedido para que fossemos criados à vosso gosto, de qualquer forma. Sabes quantas ofertas recusamos, de quantas alianças valiosas fugimos para que jamais fizéssemos partes dos erros do vosso caminho? De quantos de nós morreram para que não desferíssemos à outrém a miséria que nos foi causada? Enoja-me saber que criaturas tão frágeis como vós resolvem decidir pelos outros - pela natureza - qual rumo seguir. Enche-me de desgosto compartilhar um universo com tua raça. És um estudioso? Pois volte ao teu povo com a seguinte mensagem: Jamais retornem à Tiamat. Jamais ponham os vossos pés em Gyrqual. E jamais ousem alterar novamente a ordem perfeita d’as coisas.”
O assessor, infinitamente mais ágil na água que eu, me fez o favor de me arrastar imediatamente daquele lugar pela minha segurança e fomos embora o mais rápido possível. Talvez nunca tenha me sentido mais insultado, mais perplexo e, acima de tudo, mais culpado em toda minha vida. Imaginei que os Nektoprimals seriam gratos pela sua criação, pela oportunidade de caminhar neste mesmo universo, mas eu estava enganado. Nunca perguntamos seus desejos ou suas intenções. Os criamos e demos um propósito, e quando esse propósito se viu livre de sentido, tiveram que encontrar seu próprio. Manipulamos seus corpos para que nos agradassem, demos a eles inteligência para que seguissem nossas ordens. Até que ponto, novamente, temos direito de exigir gratidão? Sei que outras culturas não compartilham das mesmas ideias, mas acredito que seja esse exatamente o ponto central de sua tese que, novamente pedindo desculpas, se fez provada, quase ao custo de minha pele.
Enfim, acredito que lhe esteja devendo ao menos uma bebida quando voltar para casa.
De seu pupilo,Edgaris Emelas
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